Por Linhas Tortas

04/08/2008

Expressões e ditos populares

Arquivado em: Idiomas, Sociedade — Silvano @ 9:11 pm
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Ouvimos muitas o tempo todo. Na maioria dos casos sabemos o que significa, mas não sabemos de onde veio, pois o blog Lampadaria tirou essa dúvida.

Eis uma lista de expressões usuais e suas origens:

NAS COXAS – As primeiras telhas dos telhados nas Casas aqui no Brasil eram feitas de argila,que eram moldadas nas coxas dos escravos que vieram da África. Como os escravos variavam de tamanho e porte físico, as telhas ficavam todas desiguais devido as diferentes tipos de coxas. Daí a expressão fazendo nas coxas, ou seja, de qualquer jeito.

CALCANHAR DE AQUILESDe acordo com a mitologia grega, Tétis, mãe de Aquiles, a fim de tornar seu filho indestrutível, mergulhou-o num lago mágico,segurando-o pelo calcanhar.Na Guerra de Tróia, Aquiles foi atingido na única parte de seu corpo que não tinha proteção: o calcanhar. Portanto, o ponto fraco de uma pessoa é conhecido como calcanhar de Aquiles.

VOTO DE MINERVA - Orestes, filho de Clitemnestra, foi acusado pelo assassinato da mãe. No julgamento, houve empate entre os acusados. Coube à deusa Minerva o voto decisivo, que foi em favor do réu. Voto
de Minerva é, portanto, o voto decisivo.

CASA DA MÃE JOANANa época do Brasil Império, mais especificamente durante a minoridade do Dom Pedro II, os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro, cuja proprietária se chamava Joana. Como esses homens mandavam e desmandavam no país, a frase casa da mãe Joana ficou conhecida como sinônimo de lugar em que ninguém manda.

CONTO DO VIGÁRIO - Duas igrejas de Ouro Preto receberam uma imagem de santa como presente. Para decidir qual das duas ficaria com a escultura, os vigários contariam com a ajuda de Deus, ou melhor, de um
burro. O negócio era o seguinte: colocaram o burro entre as duas paróquias e o animalzinho teria que caminhar até uma delas. A escolhida pelo quadrúpede ficaria com a santa. E foi isso que aconteceu, só que,mais tarde, descobriram que um dos vigários havia treinado o burro. Desse modo, conto do vigário passou a ser sinônimo de falcatrua e malandragem.

FICAR A VER NAVIOSDom Sebastião, rei de Portugal, havia morrido na batalha de Alcácer-Quibir, mas seu corpo nunca foi encontrado. Por esse motivo, o povo português se recusava a acreditar na morte do
monarca. Era comum as pessoas visitarem o Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para esperar pelo rei. Como ele não voltou, o povo ficava a ver navios.

NÃO ENTENDO PATAVINASOs portugueses encontravam uma enorme dificuldade de entender o que falavam os frades italianos patavinos, originários de Pádua, ou Padova, sendo assim, não entender patavina
significa não entender nada.

SEM EIRA NEM BEIRAOs telhados de antigamente possuíam eira e beira, detalhes que conferiam status ao dono do imóvel. Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de cultura. Não ter eira nem beira significa
que a pessoa é pobre, está sem grana.

O CANTO DO CISNEDizia-se que o cisne emitia um belíssimo canto pouco antes de morrer. A expressão canto do cisne representa as últimas realizações de alguém.

ESTÔMAGO DE AVESTRUZDefine aquele que come de tudo. O estômago do avestruz é dotado de um suco gástrico capaz de dissolver até metais.

LÁGRIMAS DE CROCODILO - É uma expressão usada para se referir ao choro fingido. O crocodilo, quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, ele
chora enquanto devora a vítima.

ONDE JUDAS PERDEU AS BOTASLugar longe, distante, inacessível. Como todos sabem, depois de trair Jesus e receber 30 dinheiros, Judas caiu em depressão e culpa, vindo a se suicidar enforcando-se numa árvore. Acontece que ele se matou sem as botas. E os 30 dinheiros não foram encontrados com ele. Logo os soldados partiram em busca das botas de Judas, onde, provavelmente, estaria o dinheiro. A história é omissa daí pra frente. Nunca saberemos se acharam ou não as botas e o dinheiro. Mas a expressão atravessou vinte séculos.

NHEN NHEN NHEMConversa interminável em tom de lamúria, irritante, monótona. Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer “nhen-nhen-nhen“.

O PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER - Histórico: Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imaginava era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver.

DA PA VIRADA - Um sujeito da pá virada pode tanto ser um aventureiro corajoso como um vadio. Mas a origem da palavra é em relação ao instrumento, a pá. Quando a pá está virada para baixo, voltada para o solo, está inútil, abandonada decorrentemente pelo homem vagabundo, irresponsável, parasita. Hoje em dia, o sujeito da “pá virada”, parece-me, tem outro sentido. Ele é o “bom”. O significado das expressões muda muito no Brasil com o passar do tempo.

PENSANDO NA MORTE DA BEZERRA - Estar distante, pensativo, alheio a tudo. Esta é bíblica. Como vocês sabem, o bezerro era adorado pelos hebreus quando se afastavam de sua religião e, em outras ocasiões, sacrificados a Deus num altar. Quando Absalão, por não ter mais bezerros, resolveu sacrificar uma  bezerra, seu filho menor, que tinha grande carinho pelo animal, se opôs. Em vão. A bezerra foi oferecida aos céus e o garoto passou o resto da vida sentado do lado do altar “pensando na morte da bezerra”. Consta que meses depois veio a falecer.

VAI TOMAR BANHO – Quando alguém aborrece a nossa paciência, falamos esta frase! Em “Casa Grande & Senzala“, Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português. Depois das Cruzadas, como corolário dos contatos comerciais, o europeu se contagiou de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja. Ora, o índio não conhecia a sífilis e se lavava da cabeça aos pés nos banhos de rio, além de usar folhas de árvore para limpar os bebês e lavar no rio as redes nas quais dormiam. Ora, o cheiro exalado pelo corpo dos portugueses, abafado em roupas que não eram trocadas com freqüência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios. Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos portugueses, mandavam que fossem “tomar banho”.

07/06/2008

O Tupi em São Paulo

Arquivado em: Idiomas — Silvano @ 11:25 pm
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É engraçado hoje como a gente tem tanto contato com diversos nomes indígenas a nossa volta e nunca nos perguntamos seus significados.

Eu morei a maior parte da minha vida em Maceió (aportuguesamento do indígena Massayo) e hoje moro em São Paulo e nos dois lugares há muitos nomes de rua e de bairros de origem indígena (como Pajussara em maceió, Anhagabaú em São Paulo e Jaraguá em ambas cidades) e eu nunca procurei saber qual seria o significado de tal nomes. Claro que na vida pratica isso não tem nenhuma influência, mas em termos de cultura e de certo modo valorização do que podemos considerar como “natural do Brasil” (que seriam as línguas indígenas nesse caso).

Recentemente foi lançando um guia turístico que compila significados de nomes de bairros e ruas de São Paulo advindos da língua nativa. O livro Tupi em São Paulo de Vera Lúcia Dias foi escrito depois de muita pesquisa e estudo, tudo porque ela não conseguiu responder uma simples pergunta de uma turista “o que significa Maracanã?” (que é um tipo de Arara amarela, outrora comum no Brasil). Dai veio uma série de outras palavras como pacaembu (rio das pacas), tucuruvi (gafanhoto verde), anhangabaú (bebedouro do demônio), jaçanã (galinha d’água), tatuapé (caminho do tatu), anhangüera (diabo velho), itaquera (pedra a dormir), guaianazes (parente), ipiranga (riacho vermelho), jabaquara (esconderijo de negros fugidos), morumbi (mosca verde) e ibirapuera (madeira podre) e etc.

Realmente impressiona como é comum falarmos nomes de coisas e lugares sem ter a menor idéia do significado deles (mesmo quando óbvio, acredito, por exemplo, que nem todo mundo relaciona de cara Estados Unidos com, digamos, estados unidos!). Claro que o fato de ser outra língua diminui um pouco o peso, mas ainda assim eu me senti bem em saber que o significado de tais nomes.

Para quem ficar com a curiosidade do Tupi um pouco mais atiçada, aprendê-lo não é tão difícil, há um curso online (importante dizer que é de graça) de 10 lições feito por Eduardo Navarro, professor da USP e presidente da ONG Tupi Aqui (rende até certificado, se você desejar).

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